“Sobrevivi a 460 dias em cativeiro”, diz sequestrada em zona de conflito

Em mais de 15 meses de cárcere, fui humilhada e violentada. Apanhei, passei fome e fui estuprada. Diversas vezes. Acreditar que reencontraria a paz me ajudou a superar uma dor insuportável

AMANDA LINDHOUT, EM DEPOIMENTO A THAIS LAZZERI

22/09/2013 10h00

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DO LUTO À LUTA A canadense Amanda Lindhout (à dir.) na Somália. Depois de libertada, ela criou uma ONG e voltou ao país para ajudar mulheres  (Foto: Arq. pessoal)
Amanda Lindhout (Foto: ÉPOCA)

▪ Somália, 2008 ▪

Uma nova Amanda nasceu no dia 23 de agosto de 2008, aos 27 anos, na Somália. De jornalista freelance, tornei-me parte de uma estatística sinistra: os jornalistas sequestrados em zonas de conflito. Fui sequestrada por rebeldes no meu segundo dia de trabalho no país. Gostaria de dizer que hesitei em ir para lá, mas não é verdade. Sabia que a Somália era hostil. Houve 13 tentativas de estabelecer um governo central, e todas fracassaram. O 14º governo que estava no poder, de acordo com os relatos, era totalmente inócuo.

Organizações internacionais tinham deixado o país. Ocidentais eram mercadoria. Mesmo assim, quando decidi conhecer a capital, Mogadíscio, fiquei feliz. Via humanidade e esperança debaixo daquilo tudo. Imaginei fazer reportagens de impacto e vender às grandes redes. Pensei que a Somália seria minha grande oportunidade.

Desde jovem, trabalhava para pagar minhas viagens. Em geral, era garçonete de baladas de luxo no Canadá – por noite, conseguia mais de R$ 1.000 em gorjetas. Três ou quatro meses servindo martínis pagavam uma passagem e a estadia de cinco meses fora. Fiz mochilão pela América do Sul e Central. Em outra oportunidade, fui ao Paquistão, à Síria, à Etiópia e ao Sudão. Meu lema era, sempre, seguir em frente. Numa dessas viagens, conheci o trabalho de jornalistas freelances. Busquei informações com conhecidos e em sites, fiz alguns contatos e cursos no Canadá e saí em busca de boas histórias em zonas de conflito. Passei quase sete meses em Bagdá. Acompanhei as guerras de perto, mas nunca fiz parte de uma.

Meu plano era passar poucos dias na Somália, para visitar um campo de refugiados e entrevistar uma médica reconhecida pelo trabalho humanitário. Para me acompanhar, tinha um guia, um guarda e um tradutor, todos somalianos, e meu ex-namorado Nigel Brennan, que convenci a vir da Austrália para fotografar. No segundo dia, nosso carro foi parado por homens com fuzis AK-47. Exigiram que saíssemos do veículo. Pensei que era um assalto. Fomos colocados noutro carro, que partiu imediatamente. O pânico crescia dentro de mim. Um dos sequestradores, que se apresentou como Ali, me disse: “Não se preocupe irmã. Nada lhe acontecerá”. No dia seguinte, Ali contou o que aconteceria. “Alá incutiu no meu coração a tarefa de pedir um resgate.”

Calmamente, afastei a ideia de que a situação duraria apenas um dia. Ficaríamos ali dois dias. No Canadá, os sequestradores falaram com minha mãe, já orientada pela polícia canadense. Os agentes foram diretos.

Sequestros aconteciam e chegavam ao fim. Nigel e eu éramos mercadorias, então os captores tinham interesse em nos manter vivos.

Os garotos, como chamávamos nossos sequestradores, eram jovens em sua maioria. Um sonhava em casar e estudar na Índia, outro queria ser um homem-bomba. Todos eram fundamentalistas. Isso significava adotar e seguir as interpretações mais rígidas do Alcorão. Cinco vezes por dia orávamos. Durante as orações, me apegava a um ideal secreto, como quanto me sentia segura nos braços da minha mãe.

Meus captores deixaram claro que uma mulher em cativeiro, como eu, poderia ser usada e explorada sexualmente.  Foi o que aconteceu (Foto: Arq. pessoal)

Mudamos de casa várias vezes. Em algumas, ficamos trancados meses. Noutras, dias ou horas. Tudo era feito às pressas, na madrugada, por caminhos de terra ou de areia macia no deserto. Nigel e eu íamos sempre no banco de trás, encapuzados. Comecei a ter certeza de que, escondidos no interior da Somália, nunca seríamos encontrados.

Como os sequestradores seguiam o Alcorão, imaginei que, se nos convertêssemos, teriam de nos tratar bem. Nigel odiou a ideia, mas fui em frente. Um dos garotos trouxe versões do Alcorão traduzidas para o inglês. Estudamos por vários dias. Alguns versos mostravam que um bom comportamento da minha parte deveria ser valorizado. Outros, que a boa conduta não valia “com aqueles que a tua mão direita possui”. Noutras palavras, uma mulher cativa, como eu, poderia ser usada e explorada sexualmente. Decidimos nos tornar muçulmanos.

Eu era a única mulher, numa casa com mais de dez homens. A casa vibrava com uma energia masculina. Sentia isso quando os garotos pousavam os olhos em mim. Certa manhã, eles entraram abruptamente em nosso quarto e levaram Nigel para outro cômodo. Nos dias seguintes, um deles, Abdullah, começou a ir ao meu quarto à tarde e a remexer nas minhas coisas. Depois, percebi que era um teste para descobrir quanto barulho poderia fazer enquanto os outros dormiam. Um dia, Abdullah forçou-se para dentro de mim. Em dez segundos, estava acabado. Abdullah voltou ao meu quarto diversas vezes. A cada visita, tinha de me convencer a não querer morrer.

Nigel, com quem conseguia falar pela janela do quarto, propôs escaparmos. Nigel disse que as barras de ferro da janela do banheiro estavam frouxas, e o cimento esfarelava facilmente. Por lá, era possível sair. Planejamos a fuga em detalhes. Usamos os momentos no banheiro para cavar. A primeira tentativa de fuga aconteceu à noite. Não deu certo, porque os ossos do meu quadril entalaram na passagem. Nigel tirou mais uma barra da janela naquela madrugada. Fugimos de manhã.

Quem nos viu na rua correu de nós. Se você corre num lugar como a Somália, todos saberão que está fugindo de algo perigoso e fugirão de você. Fomos na direção de uma mesquita. Lá, homens somalianos chamaram um líder local para decidir nosso destino. Não deu tempo de ele chegar. Foi tudo muito rápido. Uma mulher, completamente coberta, apareceu na multidão. Ela veio para me proteger. Aos prantos, contei a ela sobre os estupros e fiz gestos com as mãos para que entendesse. Ela disparou um berro. O clima na mesquita mudou. Abdullah, um dos sequestradores, apareceu na mesquita e começou a me puxar. A mulher foi a única que tentou impedi-lo. Fui arrastada até um carro. Minhas roupas, largas, cederam. Fiquei nua da cintura para baixo. Nigel foi levado junto.
Os captores me acusaram de ordenar a fuga – e Nigel não mencionou que a ideia foi dele. Apanhamos muito. Fui acorrentada e estuprada por vários homens. Meu cabelo caiu aos tufos. Apanhei tanto que perdi alguns dentes. Minha pele exalava pus. Minhas costelas nunca paravam de doer, até ser chutadas novamente. A água suja que me davam para tomar causava dores no estômago. Fiquei presa num quarto escuro por meses. Para não desistir de viver, passei a repetir um mantra, que aprendi no Canadá: “Por meio desta respiração, escolho a liberdade. Por meio desta respiração, escolho a paz”.

No Canadá, um ano depois do início do nosso sequestro, meus pais desistiram do apoio da polícia e se uniram à família de Nigel para contratar um especialista em resgates. Um dia, no cativeiro, retiraram nossas correntes e nos colocaram num carro. Tinha certeza de que era o fim. O motorista seguiu até uma estrada e parou ao lado de dezenas de homens armados. Comecei a chorar e a gritar. Um deles me perguntou: “Por que você está chorando? Pegue o telefone e fale com sua mãe.” E lá estava a voz dela. “Amanda, você está livre.” Era 25 de novembro de 2009.

A imagem da mulher na mesquita nunca me abandonou. Seis meses depois de ser libertada, voltei à Somália à frente de uma ONG que criei. Minha missão é ajudar as mulheres daquele país, como aquela desconhecida que lutou por mim.

 

http://epoca.globo.com

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