Dany Barreto Entrevista… o Senador Álvaro Dias

O segundo bate-papo do “Dany Barreto Entrevista” é com o senador Álvaro Dias, do PSDB do Paraná e maior opositor dos governos petistas de Lula e Dilma. Ex-vereador de Londrina (PR), ex-deputado estadual, ex-deputado federal (obteve a maior votação proporcional da história do Paraná, foi eleito Senador em 1982 (foi Vice- líder do PMDB), Álvaro foi eleito governador em 1986 com 72% dos votos válidos (apontado pelo Data Folha o governador mais popular do país). Em 1998, retorna ao Senado – desta vez com 65% dos votos -, oportunidade na qual presidiu duas Comissões Parlamentares de Inquérito: a CPI do Futebol e a CPMI da Terra. Membro titular das CPIs dos Bingos e dos Correios). Vence as eleições para o Senador em 2006, pela terceira vez. Foi escolhido pelo “Congresso em Foco” o melhor Senador do país. Foi eleito vice-presidente do Senado Federal e, em julho de 2007, recebeu em San Diego, na Califórnia, o diploma de Doutor honoris causa em Administração Governamental (Doctor of Government Administration) pela Southern States University. Recebeu o Prêmio do Mérito Legislador 2008. Em 2009, propôs a criação da CPI da Petrobras, passando a ser titular da comissão, assim como da CPI das ONGs e da CPI dos Cartões Corporativos. Em 2010, foi relator das mudanças na Lei Pelé. Hoje, Álvaro Dias conversa conosco sobre o Mensalão e as disputas internas do PSDB pela indicação do candidato a Presidente da República.

* Militância e trajetória política

Colunista: Senador, você iniciou a militância política ainda muito jovem, em Londrina – cidade na qual venceu seu primeiro pleito para vereador. Porque essa opção pela política?

Senador Álvaro Dias: A minha participação na política estudantil foi decisiva na definição dos rumos de minha trajetória. Ao presidir o Diretório Acadêmico Rocha Pombo na Faculdade em Londrina, digamos que foi inoculado o “vírus” da atividade política. Foi essa vivência ainda nos limites do campus universitário que selou meu itinerário na vida pública.

* O Planalto e Eleições 2014

Colunista: Em 1989, você disputou a indicação do candidato do PMDB à presidência da República com Ulysses Guimarães, Waldyr Pires e Íris Rezende. 21 anos depois, viveu alguns meses de indicado a candidato a vice-presidente, na chapa de José Serra, quando teve o nome substituído pelo do ex-deputado inexpressivo Índio. O Planalto é o propósito maior da sua trajetória política?

Senador Álvaro Dias: Não é crível que alguém que ingressou na vida política, detentor de mandato popular, renegue a pretensão de um dia ser alçado pelo voto popular ao cargo de 1º mandatário da nação. Não se trata de uma mera veleidade. É uma postulação lícita. Mas não posso afirmar que tenha sido esse o propósito que me guiou. Jamais atropelei o consenso em busca da imposição de meus eventuais objetivos. A esse respeito me permito invocar o Padre Antônio Vieira: “Mais fácil é unir distâncias e vontades, que casar opiniões e entendimentos.”

Não é crível que alguém que ingressou na vida política renegue a pretensão de um dia ser alçado pelo voto popular ao cargo de 1º mandatário da nação.

Colunista: No final de agosto, José Serra sondou alguns aliados – inclusive você – para discutir a realização de prévias no PSDB visando à escolha do candidato à Presidência da República e afirmou que “Quero conhecer logo o meu candidato a presidente, para que ele possa percorrer o país e mobilizar os nossos filiados.” Falar, em pleno 2013, em mobilizar filiados, com uma militância esquerdista tão aguerrida e há décadas organizada, faz o PSDB parecer um partido que sempre corre atrás de uma inserção na sociedade que ele não consegue alcançar. Está na hora de renovar os quadros do partido e adotar uma postura (mais do que um discurso) de efetiva aproximação com o povo?

Senador Álvaro Dias: Primeiramente, relembro que sou autor de um projeto para disciplinar a realização de eleições primárias para a escolha do candidato à Presidência da República.  Aprovado no Senado, seguiu para Câmara dos Deputados onde já foi apreciado pela Comissão de Constituição e Justiça e aguarda inclusão na ordem do dia. A minha proposta não pretende obrigar os partidos a realizarem eleições primárias, mas, sim, propiciar as condições materiais e institucionais para que os partidos possam optar por fazê-las, mediante a assistência da Justiça Eleitoral que garanta aos partidos e coligações os meios e a lisura necessários ao processo de escolha do seu candidato a Presidente da República. Não há dúvida de que a nossa inspiração é o modelo americano que propicia, a cada quatro anos, o confronto de ideias entre os candidatos do mesmo partido para que possa ser escolhido um que concorrerá à Presidência da República, já tendo as suas idéias sido aprovadas pela maioria dos simpatizantes de sua legenda. De outro lado, as nossas diferenças histórico-políticas em relação aos Estados Unidos não recomendam que meramente transplantemos o seu modelo de eleições primárias, haja vista o nosso sistema eleitoral contar com uma Justiça Eleitoral que assume a responsabilidade pela condução de nosso processo eleitoral em todas as suas fases.  Em relação ao outro questionamento, não concordo com o cotejamento entre o engajamento da militância de esquerda e possíveis iniciativas do PSDB em ampliar seu quadro de filiados. É legítimo que a legenda procure atrair novos simpatizantes sem qualquer condicionante temporal. O exercício pleno da oposição, o papel fiscalizador e a prontidão cívica são elos permanentes com a população.

O exercício pleno da oposição, o papel fiscalizador e a prontidão cívica são elos permanentes com a população.

Colunista: Você declarou à coluna Poder, da Folha de São Paulo, que o PSDB já deveria ter iniciado esse processo das prévias. Quem se favorece com esse “atraso” nas discussões internas do partido? Aécio?

Senador Álvaro Dias: Não preciso repetir que considero a realização de prévias algo salutar, um tônico partidário sem igual. O calendário é mutável. O importante é promover os debates internos e consultar os filiados da maneira mais ampla e democrática possível.

Colunista: Essas prévias seriam uma encenação dos aliados internos de Aécio apenas para garantir a presença de Serra no PSDB?

Senador Álvaro Dias: É tarde. O calendário para a realização das primárias deveria ter inicio em 2.012 precedendo as eleições municipais. O PSDB optou por outro caminho e desperdiçou a oportunidade de viver internamente a democracia no importante capítulo da escolha de seu candidato à presidência.

Colunista: Você cogita sair do PSDB para disputar uma eleição presidencial em 2014, caso isso não seja possível no partido?

Senador Álvaro Dias: Sem convocação de significado popular essa cogitação seria aventura.  Uma candidatura à presidência deve ser fruto sempre de convocação que vá muito além da simples ambição pessoal.

Colunista: Não sendo o candidato a Presidente, a possibilidade do PSDB não te dar legenda para o Senado em seu estado é real? Como está a relação com o partido no âmbito estadual?

Senador Álvaro Dias: Na política muitas vezes o boato vence o fato. Não há essa hipótese.

Colunista: Senador, você é o único opositor que efetivamente incomoda o governo Dilma, pela sua postura e discursos sempre incisivos (inclusive, seu correligionário Aécio, nesse sentido, deixa muito a desejar porque não se insere de fato na agenda nacional e pouco se sabe sobre seus reais posicionamentos). Do ponto de vista político, qual o tamanho real da oposição atualmente?

Senador Álvaro Dias: Ouço invariavelmente que a oposição não existe, que a oposição degusta da mesma pizza, que é incompetente, medíocre etc. Não é salutar unir a oposição na mediocridade. Sou contra a generalização porque desestimula. Pergunto: Qual a vantagem do combate à corrupção, do enfrentamento aos desmandos, da exposição que contraria interesses escusos, das tensões, das ameaças, dos riscos de represálias, se não há reconhecimento? Essa afirmação da generalização é o apelo à cumplicidade coletiva. Trabalha contra o interesse nacional. A oposição é a menor da nossa história, mas existe. Somos poucos e apenas alguns  enfrentam. Devem ser valorizados em nome da democracia, do povo, da Nação enfim!

Ouço invariavelmente que a oposição não existe, que a oposição degusta da mesma pizza, que é incompetente, medíocre etc.

Colunista: Nesta semana, você afirmou que o governo federal age com desrespeito e desapreço ao Legislativo, apequenando-o. Qual o impacto, num Estado Democrático de Direito, dessa forma dos governos Lula e Dilma tratarem o Legislativo?

Senador Álvaro Dias: No regime de presidencialismo imperial foi estabelecida uma correlação nefasta entre governabilidade e promiscuidade. Um balcão de negócios no qual a cooptação é praticada em nome de uma arquitetura política que busca a unanimidade. Isso nos trouxe escândalos magistrais. O mensalão é o exemplo mais emblemático. Sou um fervoroso crítico do atual diapasão que regula a relação entre os Poderes Executivo e Legislativo.

Colunista: Com as manifestações que ocorreram nos últimos meses, o tema da Reforma Política virou a pauta do momento. Qual seria a reforma ideal? Esse Congresso tem condição moral de fazê-la?

Senador Álvaro Dias: O Congresso atual está “contaminado” e sem condições para oferecer um modelo político à altura das aspirações da sociedade brasileira. Eu creio que nós deveríamos, toda vez que falássemos em reforma política, pedir desculpas ao povo brasileiro, afinal há mais de duas décadas nós estamos discutindo e prometendo um novo modelo político para o País. Seria mais prudente se governistas, oposicionistas e partidos políticos celebrassem um grande pacto, transferindo a responsabilidade da reforma política para o Congresso a ser eleito no próximo ano, em 2014, oxigenado pelas urnas. E, certamente, seja quem for o Presidente eleito, energizado pelas urnas, teríamos melhor cenário, ambiente mais adequado para o debate e realização de um projeto que confira ao País um novo modelo político compatível com as aspirações do nosso povo.

Colunista: Mais uma vez assistimos milhões em recursos públicos serem desviados por organizações não-governamentais, que receberam dinheiro mediante convênios irregulares. O governo federal tem adotado alguma medida para coibir ou é conivente porque dentro dele há muita gente que se beneficia desse esquema?

Senador Álvaro Dias: A promiscuidade que se estabeleceu entre as esferas públicas e privadas nos últimos anos deixou marcas indeléveis na máquina de Estado. Na CPI das ONGs tentamos abrir essa caixa de pandora, mas a maioria governista nunca permitiu que as investigações fossem consumadas. O governo Federal é leniente e promove faxinas cosméticas.

Colunista: Um dos mais combatentes parlamentares na época em que surgiram as denúncias do Mensalão, como você avalia o desfecho parcial do caso?

Senador Álvaro Dias: O ideal seria que o julgamento se encerrasse agora, mas, independentemente do que o ministro Celso Mello decidir, acredito que o STF manterá a pena dos condenados, como mostra a tradição da Corte. Vivemos uma semana decisiva para que finalmente se possa sonhar com a hipótese de que a justiça derrotará a impunidade. Para a Nação, seria um momento de euforia e de aplauso o não acolhimento deste recurso, mas saberemos respeitar seja qual for a decisão desse ministro que conquistou credibilidade em razão de sua correção, competência e talento.

* Mensagem aos jovens

Colunista: Senador, no que um jovem vocacionado à política deve se inspirar na sua bem sucedida trajetória política em defesa do povo?

Senador Álvaro Dias: Não tenho a veleidade de apresentar nem prescrever um receituário. A política clama por novos valores e precisa ser oxigenada. Os que são vocacionados devem estar preparados para enfrentar os enormes desafios que estão postos ao Brasil. Há que se ter fé, perseverança e acreditar que vale a pena lutar pela ética na política.

Daniele Barreto é advogada, pós-graduada em Direito do Estado, consultora política especialista em marketing político eleitoral, colunista e blogueira (www.danielebarreto.com.br)

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