A ascensão do cantor Naldo: de engraxate a ídolo popular

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A trajetória do menino da favela que virou um dos cantores mais famosos do Brasil atualmente

SEXO E DANÇA Naldo em pose de funkeiro romântico. Ele faz letras suaves com apelo sexual (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)SEXO E DANÇA
Naldo em pose de funkeiro romântico. Ele faz letras suaves com apelo sexual
(Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

Roberto chegou com a proposta de conseguir uma arma com traficantes da facção que comandava o morro. Depois, pegaria uma moto emprestada. Nela, os dois melhores amigos, de 13 anos, iriam para um bairro mais abastado ali perto e, arma em punho, assaltariam pessoas na rua. Poderiam dividir o dinheiro, ajudar a família, comprar as roupas que sempre quiseram. Ronaldo sentiu medo. Pensou na prisão e na morte, mas tudo parecia levá-lo ao assalto. Queria um tênis de marca, mas a situação da família era difícil. Dividia com os pais e sete irmãos um espaço de 24 metros quadrados na Vila do Pinheiro, no complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro. Por uma fresta na janela da casa, via traficantes matar e morrer. Ronaldo notou que o amigo também tinha medo, mas topou assim mesmo. Roberto reapareceu uma semana depois, já com a arma. Desta vez Ronaldo voltou atrás. “Não”, disse ao amigo. “Pense nos nossos pais. E se a gente for preso, se morrer? Vamos dar outro jeito, cara. Sei lá, arrumar um emprego.”

A vida seria diferente se Ronaldo Jorge da Silva tivesse escolhido o caminho do crime. Hoje, conhecido como Naldo, é um dos cantores mais famosos do Brasil. Há dois verões coleciona sucessos. Em 2012, com “Chantilly”. Neste ano, com “Amor de chocolate” (“Vodca ou água de coco, pra mim tanto faz…”), a mais tocada do país e a mais baixada no iTunes. “Meu corpo quer você”, com Preta Gil, na trilha da novela Salve Jorge, ocupa o segundo lugar. “Se joga”, com o rapper americano Fat Joe, é um dos hits das festas nacionais. Naldo fez 300 shows em 2012 e apareceu em dezenas de programas de TV. Em setembro, se apresentará no Brazilian Day, em Nova York. Para entender o novo fenômeno, a reportagem de ÉPOCA caiu na estrada com Naldo e percorreu 1.131 quilômetros em dois dias, no ônibus do cantor.

ASTRO FAMÍLIA 1. Naldo e Lula bebês. Desde cedo os irmãos não se largavam; 2. A dupla em cartaz da EMI; (Foto: Arquivo pessoal)
ASTRO FAMÍLIA
1. Naldo e Lula bebês. Desde cedo os irmãos
não se largavam; 2. A dupla em cartaz da EMI
(Fotos: Arquivo pessoal)

Na noite de 26 de janeiro, Naldo chegou assustado ao local do show em Sorocaba, no interior de São Paulo. Ali perto, no caminho, um homem saltara do mato escuro e apontara um revólver para o carro. Como o veículo era blindado, o motorista acelerou, e o bandido fugiu. Passado o susto, no camarim do Clube Recreativo Campestre, Naldo seguiu sua rotina antes de se apresentar: dançou ao som de Chris Brown e rezou. Ellen Cardoso, sua mulher, conhecida como Mulher Morango, amarra os cadarços da bota de Naldo antes de ele entrar no palco.

A quantidade de shows aumentou de setembro para cá. Naldo faz até quatro apresentações por dia. Ele também administra a própria carreira, com a ajuda do sócio Marcos Menezes, diretor de uma empresa de transporte de valores. Seu sucesso é uma espécie de final feliz inesperado para uma história marcada pela pobreza e pela morte trágica de Lula, seu irmão mais velho e parceiro. Por causa dessa biografia acidentada, Naldo virou um exemplo de perseverança. Nasceu em circunstâncias desfavoráveis, insistiu na busca de um sonho e chegou quase lá – como milhões de brasileiros aspiram fazer.

O Complexo da Maré, onde Naldo cresceu, é formado por 16 favelas que se espalham às margens da Baía de Guanabara. Naldo chegou lá com a família aos 5 anos. A bronquite, provocada pela umidade do aterro recente, atingiu os oito filhos de Ivonete Maria da Silva e Manoel Jorge da Silva. Naldo foi o primeiro, ainda bebê. Desde aquela época a música estava com ele. Do único cômodo de sua casa, ouvia os hinos da Assembleia de Deus, igreja em que sua mãe era zeladora. Na igreja, começou a cantar e a tocar. Em casa, ouvia os discos que a irmã mais velha comprava: Menudos, Michael Jackson, Stevie Wonder. Compôs a primeira música aos 12 anos, para uma professora chamada Rosa Palhares: Devo muito a ti/muito fez por mim/linda rosa, te agradeço, professora. Naldo diz que ela chorou ao ouvir a música. O primeiro trabalho dele foi como engraxate, aos 11 anos. Com sua primeira féria, deu à mãe uma colcha de renda verde e rosa. Também vendia frutas com o pai no centro da cidade, numa Kombi enferrujada e sem documentos. Tímido, era péssimo vendedor. Quando Manoel voltava, encontrava as frutas e o dinheiro do troco no mesmo lugar. Lula, o irmão, sorridente e falante, vendia tudo.

1. Manoel e Ivonete Silva, os pais. Ele pediu ao filho que desistisse da carreira; 2. Naldo aos 11 anos, na ficha de engraxate de uma ONG carioca; 3. Naldo e Ellen Cardoso,  a Morango, sua mulher  (Foto: Américo Junior/ÉPOCAe Philippe Lima/AgNews)1. Manoel e Ivonete Silva, os pais. Ele pediu ao filho que desistisse da carreira; 2. Naldo aos 11 anos, na ficha de engraxate de uma ONG carioca; 3. Naldo e Ellen Cardoso, a Morango, sua mulher (Fotos: Aquivo pessoal, Américo Junior/ÉPOCA e Philippe Lima/AgNews)

Foi de Lula a ideia de seguir a carreira musical. Depois de fracassar numa dupla com um amigo, chamou Naldo. Surgiu Naldo & Lula. Com a ajuda de um vizinho, encontraram um estúdio em Bonsucesso, na Zona Norte, para gravar um CD. Fizeram aulas de canto. A mãe juntava os trocados da venda de cosméticos e dava o dinheiro do ônibus. Às vezes, o dinheiro dava só para um – e aí os dois precisavam se espremer para passar juntos na roleta. Um dia, o produtor do CD e o filho dele foram assassinados. Naldo e o irmão nunca recuperaram as gravações já feitas ou o dinheiro gasto.
Diante do revés, Naldo arrumou um emprego numa loja de bombons na rodoviária. Estourava naqueles dias o fenômeno do Bonde do Tigrão, no começo dos anos 2000. Um dia, ele descobriu que o orelhão em frente à loja estava quebrado e permitia ligar de graça. Conseguiu o telefone do produtor Bira Haway, em torno de quem giravam as bandas de sucesso. Ligou para ele durante seis meses. Bira enrolava, pedia para responder em um dia, uma semana, um mês – e Naldo voltava a ligar. Por fim, Bira cedeu. Entusiasmou-se com o som dos irmãos e levou Naldo e Lula para a gravadora multinacional EMI, sonho de qualquer artista iniciante. Os dois foram fotografados, pôsteres da dupla foram feitos. Quando anunciou o contrato com a EMI, Bira entregou a chave de um apartamento em Jacarepaguá a dona Ivonete, mãe dos rapazes. Prometeu que a família sairia da favela. O apartamento nunca se materializou, como outras promessas do produtor.

Naldo diz que o tempo com Bira não foi inteiramente perdido. Ele aproximou os irmãos da indústria fonográfica. Se hoje Naldo cuida de sua carreira com zelo de empresário, é graças a esse período. Na época, cada um dos irmãos ganhava só R$ 500 por mês. Com o dinheiro, foram morar num hotel em São Paulo. Achavam que a cidade tinha mais a ver com sua música, mais romântica. Naldo diz que chorava de saudades de casa. O hotel, no centro, era um pardieiro. Precisavam jogar perfume no colchão antes de dormir. Para piorar as coisas, Bira, a quem estavam atrelados comercialmente, desapareceu. E só com o aval dele os irmãos poderiam tocar nas rádios. A EMI cancelou o contrato de Naldo & Lula.

PALCO Naldo na turnê Na Veia. O CD que deu origem aos shows era um projeto dele e do irmão, que morreu assassinado. Hoje, Naldo faz cerca de 35 shows por mês em palcos de todo o país. (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)PALCO
Naldo na turnê Na Veia. O CD que deu origem aos shows era um projeto dele e do irmão, que morreu assassinado. Hoje, Naldo faz cerca de 35 shows por mês em palcos de todo o país. (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

Agora as coisas são muito diferentes. No dia 27 de janeiro, Naldo deu um show no Chevrolet Hall, uma das principais casas de espetáculo de Belo Horizonte. O lugar estava cheio, e a plateia cantava todas as canções. As músicas dançantes são as favoritas do público. Nas mais românticas, a plateia esfria. O figurino e a maquiagem de Naldo se inspiram nos astros do hip-hop americano. No telão de alta definição do palco, a principal imagem é um retrato seu com cara de mau, segurando os óculos escuros no rosto com as duas mãos. É cópia de uma das imagens de divulgação do rapper Flo Rida, sucesso nas pistas dos Estados Unidos em 2012. As letras de Naldo não são poesia fina – e o público não se importa. Naldo trata de temas eróticos com alguma elegância, sem o jeitão explícito do funk do passado. Ele também canta canções que fez com o irmão. Numa delas, “Como mágica”, a plateia mostra que se lembra do autor original e levanta as mãos fazendo um L com as mãos. De Lula.

“Acho o show dele ótimo”, afirma o crítico musical Silvio Essinger, autor do livro Batidão: um história do funk. “Naldo tem uma voz acima da média, com extensão. E conhece os artifícios para conquistar o público. Desde apelar para o sentimentalismo, ao falar do irmão, até alternar entre momentos r&b e algo mais Chris Brown. Agora se apresentou com Jorge e Mateus, a dupla sertaneja, porque percebeu que, para conquistar o país, é preciso passar pelo sertanejo universitário.”

BASTIDOR Naldo ensaia no camarim antes do show em São Paulo (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)BASTIDOR
Naldo ensaia no camarim antes do show em
São Paulo (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

A história do álbum Na veia, com que Naldo faz sucesso, é o grande símbolo de sua superação pessoal. O disco era um projeto com seu irmão. A voz de Lula está em várias faixas do álbum. Quando começaram as gravações, os dois vinham de um período bem-sucedido. A música “Tá surdo?”, da dupla, ficara 17 semanas entre as mais tocadas da cidade. Belo, o pagodeiro, gravara uma composição deles. No dia em que combinaram ir ao estúdio, Lula sumiu. Não atendia o celular e ninguém da família tinha notícias. O rapaz foi encontrado três dias depois, o corpo carbonizado numa favela. O crime até hoje não foi solucionado.

Naldo desabou. Ficou quatro meses deprimido, pensava em se vingar e desistir da música. Conhecia traficantes, podia pedir ajuda. Novamente, recusou o caminho do crime. Em vez disso, lembrou um desejo antigo do irmão e foi aprender a dançar. Matriculou-se num curso de dança e noutro de acrobacia aérea. No começo não foi fácil. Naldo caía no chão no meio de uma pirueta e lá ficava, prostrado. No Natal passado, ao vivo no programa Domingão do Faustão, Naldo chorou ao ouvir um depoimento do pai, Manoel, sobre aquela época. Num terreno escuro da favela, cansado de ver os filhos humilhados, Manoel falou: “Eu quero que vocês parem. Vendam esse carro aí, comprem uma Kombi e vão ser motoristas. Um de dia, outro de noite”. Os dois se olharam em silêncio. Naldo respondeu: “Pai, não vou parar. Sei o que eu quero para mim”. O pai nunca mais tocou no assunto.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com

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